• Gonçalo Dias Martins

Uma pirâmide de falsas promessas


“Boa tarde! Entrei num projeto inovador, que te pode fazer ganhar imenso dinheiro. Podemos combinar um café, para explicar tudo?”


Se alguma vez recebeu uma mensagem semelhante, nas suas redes sociais, provavelmente, foi alvo de uma tentativa de sedução, por parte de um esquema em pirâmide: um modelo de negócio, muitas das vezes, ilegal, que atrai muitas pessoas, essencialmente jovens, de forma fraudulenta e que se aproveita da ingenuidade de quem sente a necessidade de fazer dinheiro.


O primeiro contacto que tive com um esquema de pirâmide foi em 2014. Ainda frequentava o ensino secundário e fui abordado por amigos de confiança, que me disseram que tinham entrado num projeto inovador, revolucionário, que já tinha tido sucesso noutros países e que os faria ganhar imenso dinheiro. Perguntaram-me se tinha interesse em saber mais, e, apesar de cético, no momento, disse que sim, para não os desapontar.


Foi assim marcada uma reunião, em casa de um deles, perto da escola secundária que frequentávamos, na qual um dos responsáveis pela marca, em Portugal, iria esclarecer o projeto. A verdade é que, sem dificuldade, juntaram-se entre duas a três dezenas de jovens, que nessa tarde foram um público ideal para aquilo que viria a ser apresentado.

A empresa era a Vemma, uma marca de produtos nutricionais e dietéticos, que lançara o seu produto mais conhecido: a Verve, uma bebida energética composta apenas por ingredientes naturais, alegadamente saudável, criada com a intenção de competir com as mais famosas bebidas energéticas, como a Red Bull e a Monster.


O indivíduo que fez a apresentação parecia uma pessoa sóbria e racional, apesar dos muitos argumentos sensacionalistas que utilizou, para captar o nosso interesse. Comparou o produto a projetos de enorme magnitude, como o Facebook e a Apple (exemplo muito utilizado, nos esquemas de pirâmide), e ia mostrando exemplos de jovens da nossa idade, que, através da Vemma, tinham enriquecido de forma exponencial.


Mas, afinal, como funciona um esquema de pirâmide?


Foi esta perspetiva de comunidade e de rede que nos foi apresentada, mas com todo o folclore necessário para cativar jovens ingénuos, que, a cada slide de PowerPoint, ficavam com os olhos a brilhar mais um pouco, com a remota hipótese de estarem perante algo que os faria enriquecer. Nada resultaria melhor do que os vídeos que vimos, que retratavam jovens como nós, a conduzir carros oferecidos pela empresa, a viver em casas alugadas com o dinheiro ganho no projeto e a aproveitar uma vida sustentada pelos lucros que retiraram do seu trabalho.


Após todo o fogo de artifício, apresentaram-nos os packs de investimento, que consistiam na compra de latas de Verve, para o efeito que quiséssemos, desde que conseguíssemos reunir pessoas com interesse em fazer o mesmo investimento. Recordo-me que o primeiro pack custava 136 euros, o segundo pack custaria à volta de 400 euros e o pack mais elevado rondaria os 900 euros. Claro que nos foi dito que as recompensas de cada pack seriam superiores, consoante o valor investido. E o esquema funcionava exatamente da mesma maneira que todos os outros.

Imaginemos que o meu amigo, que me convocou para o projeto, era um membro ativo do mesmo. O meu amigo recebia dinheiro pela minha entrada. Por cada elemento que eu inserisse na rede, recebia, igualmente, dinheiro, e o meu amigo, como foi o responsável por me ter introduzido no processo, recebia também um valor, por cada um deles. Por conseguinte, cada novo membro recrutado por um elemento que tivesse sido inserido por mim na rede, também me geraria receita. Tudo era trabalhado de forma a expandir a rede, até existir uma exaustão do mercado, ou seja, tornar-se limitado o recrutamento de novos participantes.


Saí da reunião sem ter dado uma resposta. Parecia tudo demasiado fácil - como era suposto parecer. Então, decidi investigar, para tentar encontrar algo que me fizesse recuar. E assim cheguei àquilo que me surpreendeu mais. Tudo o que encontrei atribuía credibilidade à marca e afastava as minhas dúvidas de que poderia estar a ser vítima de uma fraude: àquela data, a Verve era um patrocinador oficial dos Phoenix Suns, uma equipa histórica da NBA, e a bebida que os jogadores consumiam durante os jogos (o que afastava a hipótese de ser prejudicial para a saúde). A marca era, inclusive, detentora de um lounge, na arena de Arizona. Também tinha patrocínios celebrados com os Charlotte Bobcats (NBA) e com os Seattle Seahawks (NFL). O próprio Michael Jordan tinha publicitado a Verve. A bebida tinha sido apresentada no programa do Dr. Oz, um médico conceituado e mediático, nos Estados Unidos da América, no qual o próprio promovia o consumo do produto. Ou seja, neste momento, as minhas dúvidas sobre a legalidade e credibilidade da empresa e a qualidade do produto tinham sido dissipadas. Na minha cabeça, grandes equipas e jogadores da NBA ou da NFL ou um médico reconhecido, à data, como o Dr. Oz, não se associariam a uma marca que não tivesse créditos firmados.

Restava-me confirmar se o modelo de negócio era assim tão vantajoso para os jovens e se, de facto, era possível fazer dinheiro. Todos os testemunhos que encontrei eram positivos. Todos. Nos Estados Unidos, existiam mesmo jovens a construir património, através do dinheiro que ganhavam com a Verve, e, mesmo os que não conseguiam gerar grandes lucro, conseguiam não ter prejuízo e mostravam-se satisfeitos com o projeto.



Assim, decidi entrar. Utilizei algumas poupanças que tinha, requisitei um dos packs e comecei a reunir uma enorme lista de contactos aos quais pretendia apresentar o projeto. Em termos práticos, comprei um pack de 48 latas de Verve por 136 euros, e o objetivo era convencer pessoas a realizarem a mesma compra, de forma a que, em períodos de 6 semanas, o processo se repetisse, ciclicamente.

Não vou esconder o entusiasmo que o meu “eu” de 18 anos sentia, ao entrar num projeto com a dimensão que a Verve tinha e perante a possibilidade de fazer dinheiro, de forma independente, quando ainda não tinha concluído o ensino secundário.

Na primeira semana, alguns dos meus amigos já estavam a ter retorno (os primeiros a entrar), porque a verdade é que, de todas as pessoas que estiveram na sala, naquele dia, pelo menos um terço aderiu ao esquema, o que lhes permitiu fazer algum dinheiro, logo no início. Tudo mudou, nas duas semanas seguintes. Eu estava entusiasmado, já tinha mostrado o projeto a muitos amigos, que se mostravam interessados, tinha reuniões marcadas, tudo ao nível do trabalho estava orientado. Até que recebo uma mensagem do meu amigo que tinha sido o pioneiro de todos nós a entrar na Verve. A mensagem era curta e simples: “Devolve as latas! É tudo um esquema!”.


Como eu disse, alguns dos meus amigos já estavam a fazer dinheiro, mas quando foram ser ressarcidos do valor que julgavam que iam receber, foi-lhes explicada uma série de contrassensos, que mostravam uma nova realidade do esquema montado. Não receberam o dinheiro que lhes havia sido prometido, vários objetivos e processos tinham sido mal explicados, de forma propositada ou não, e todo o cenário de “dinheiro fácil”, que nos tinha sido vendido, mostrava-se agora impossível. Eu já não pude devolver as latas. Já tinha consumido umas, usado outras para amostras do produto, oferecido algumas… Foi um investimento de 136 euros que não me trouxe nenhum retorno, assim como a todos os meus amigos que, ingenuamente, depositaram o seu dinheiro e confiança num esquema de pirâmide. Limitei-me a anular a minha subscrição e não voltei a ouvir falar da Vemma.


A empresa tinha tido, de facto, uma expansão abrupta a nível internacional, o que começou a levantar suspeições. Após várias críticas, feitas pelos media e por diversas entidades analistas financeiras, o esquema de pirâmide que suportava a empresa acabou por ser desmascarado, o que obrigou a empresa a fechar portas, em 2015, por ordem da Federal Trade Commission, a agência do governo norte-americano responsável pelo controlo do funcionamento do mercado financeiro e da proteção do consumidor. As condutas desonestas da Vemma levaram a um processo indemnizatório, ganho pelo governo italiano, e a uma exclusão unilateral de todos os países onde o esquema da empresa funcionava.

Estamos a falar do fim de uma empresa que, em 2013, declarou uma receita de 221 milhões de dólares. Grande parte dos seus distribuidores andavam na casa dos 20 anos e perderam o seu sustento, devido a um comportamento fraudulento, que os explorou até a justiça ditar o seu fim.


Os esquemas em pirâmide são ilegais, na grande maioria dos países ocidentais. Em Portugal, esta prática é considerada uma conduta de mercado desleal, proibida por lei pela alínea r) do artigo nº8 do Decreto-Lei nº 57/2008, de 26 de março, que proíbe a criação, exploração ou promoção de um sistema de pirâmide.

A verdade é que a lei, muitas vezes, não priva as empresas de montarem estes esquemas, na sociedade, escondidos por uma série de contingências, e de continuarem, assim, a aproveitar-se de forma desonesta de imensos jovens, sobretudo, numa era em que as redes sociais se transformam num meio propício ao desenvolvimento desta realidade, que acaba por movimentar muito dinheiro, de forma ilícita.

Por isso, já sabe: da próxima vez que algum membro de um projeto desta envergadura o convide para um café… responda que não bebe café.



Artigo revisto por Margarida Braga Costa

43 visualizações

RECEBE AS NOVIDADES