• Gonçalo Dias Martins

Sex Education: uma série cuja importância transcende a 7ª Arte



A Netflix lançou a segunda temporada de Sex Education. Após o sucesso da primeira temporada, a série regressa com a continuação da sua sua história de ficção, mas repleta de questões e problemas bem reais, relacionados com a sexualidade.


Para quem nunca viu a série, a trama desenvolve-se à volta de Otis Milburn, um rapaz filho de uma sexóloga, e de Maeve Wiley, uma adolescente que frequenta a mesma escola que Otis. Juntos, apercebem-se de que o resto dos alunos desconhece profundamente diversos aspetos relacionados com a sua sexualidade, o que lhes causa dúvidas e dilemas, que necessitam de ser esclarecidos. Assim, através dos conhecimentos que Otis adquiriu, devido à profissão da mãe, e da visão de Maeve, os dois decidem abrir uma clínica amadora, dentro da escola, onde os colegas pagam por consultas nas quais recebem aconselhamento e terapia sexual.


Otis e Maeve (Fonte: IMDb)

À primeira vista, esta poderia parecer apenas mais uma série juvenil, que utiliza a temática do sexo para obter audiência - um modelo que, hoje em dia, continua a resultar, apesar de seriamente desgastado. Mas Sex Education não é isso. É muito mais. A série consegue ter um pouco da irreverência de Skins, mas com a racionalidade e a contextualização necessárias para abordar questões muito importantes, de uma forma séria e rigorosa.


Numa sociedade moderna, em que a informação está facilmente acessível a todos, continua a ser alarmante a ignorância e ingenuidade de uma grande parte dos jovens, quando o assunto é a sexualidade. Os programas de educação sexual nas escolas continuam frágeis e ineficazes, e a internet, apesar de trazer muitas respostas, também traz muitos contra-sensos, que instauram a dúvida na cabeça dos mais novos. Infelizmente, muitas das vezes, os contextos familiares dos adolescentes também não lhes permitem ter a abertura e a transparência necessárias, com os pais, ou figuras mais velhas, para conversarem sobre os seus problemas ou colocarem as suas questões e, nesta medida, é raro terem um acompanhamento próximo, que os auxilie a crescer com o conhecimento devido sobre a sexualidade.


Sex Education acaba por ter esta função. Não só alerta para um cenário real, em que os jovens precisam de ser esclarecidos e continuam sem ter as ferramentas necessárias para tal, como também levanta muitos dos problemas mais comuns e disponibiliza respostas, através da ficção.


A segunda temporada começa com uma hipérbole, com esta mesma intenção. Os alunos estão convencidos de que existe um surto de clamídia na escola e acreditam que a doença se transmite através da respiração. Consequentemente, instala-se o caos, existem alunos a usar e a vender máscaras, e corre a mensagem de que a culpa é de uma aluna, que, alegadamente, é portadora da doença. Parece um cenário ridículo, mas a verdade é que muitos jovens não compreendem as doenças sexualmente transmissíveis, nem conhecem as suas particularidades. Muitos não sabem os sintomas, os meios de propagação, que existem tratamentos e cura para várias doenças, e, muitas vezes, descriminam quem as possui, de uma forma pouco consciente. Sex Education encontrou, neste cenário exagerado, uma forma de consciencializar o público para este tipo de posturas e para a importância de conhecer as DST's e as suas implicações, não só ao nível da prevenção, mas também no sentido de evitar que se aponte o dedo a doentes, sem razão. 


Esta temporada trouxe de novo questões muito importantes, relacionadas com a pluralidade sexual. Se a primeira temporada tinha tido uma atenção redobrada sobre a homossexualidade, explorada através da personagem Eric, um rapaz afro-americano, de uma família religiosa, que se envolve com Adam, refém de uma educação ocidental retrógrada, da parte do seu pai, nesta segunda temporada, novas orientações sexuais são representadas, nomeadamente a bissexualidade, a pansexualidade e a assexualidade.


Adam e Eric (Fonte: IMDb)

Existem dois vértices transversais à realidade atual. A quantidade de jovens que cresce com dúvidas relativas à sua orientação sexual e que questiona a normalidade das suas atrações físicas e emocionais, e a forma como, muitas vezes, a sociedade os descrimina e os retrai, o que os força a viver sob padrões que não correspondem à sua identidade. Apesar de vivermos numa era em que as diferentes orientações sexuais conquistam o seu espaço natural e os seus direitos, ainda existem muitos traços tradicionais de homofobia, numa grande fatia da população, e essa realidade é igualmente representada em Sex Education. Tanto o lado positivo, de aceitação da pluralidade sexual, como as barreiras que ainda se colocam a quem tenta ser aceite pelos outros, e, acima de tudo, aceitar-se a si próprio, tal como é.


Porém, apesar da relevância de todos os temas abordados pela série, houve um que, nesta temporada, ganhou um novo relevo e, a meu ver, é talvez o mais importante de todos (sem diminuir os outros). O assédio sexual é representado, nesta série, de uma forma explícita, que, apesar de chocante, é uma realidade muito presente no quotidiano, essencialmente no do sexo feminino, mas não só. Em Sex Education, a personagem Aimee Gibbs é assediada no autocarro. Um indivíduo masturba-se junto dela e acaba por ejacular na roupa da adolescente, sem que esta pudesse fazer algo para o impedir, presa pelo amontoado de gente que se encontrava dentro do transporte e que nada fez para evitar a situação. Este episódio causa um trauma em Aimee, que traz fortes consequências para a sua vida, na medida em que a rapariga se torna incapaz de voltar a apanhar o autocarro para a escola, como fazia diariamente, e não consegue ter intimidade física com o seu namorado, pois sente um desconforto, associado ao assédio de que foi vítima.


Momento em que Aimee é assediada no autocarro (Fonte: IMDb)

Este fenómeno, infelizmente, é muito comum e são incontáveis os episódios em que raparigas, rapazes e até crianças são assediados, em plena via pública, no dia-a-dia. A série alerta, de uma forma consciente, para a gravidade deste cenário e para a enorme importância de reportar estes casos às autoridades e de proteger as vítimas. Este acontecimento origina uma verdadeira onda feminista e todas as principais raparigas da série se juntam para ajudar Aimee, demonstrando uma atitude solidária e de união, que revela a força que uma causa desta magnitude pode ter. Num momento em que se assiste a várias manifestações feministas, que nem sempre dignificam a luta essencial pela igualdade de género e pela proteção do sexo feminino, um momento cinematográfico como este de Sex Education mereceu todo o mediatismo que adquiriu, nos meios de comunicação e nas redes sociais, e despertou uma onda de preocupação e de luta contra estes atos inqualificáveis, praticados por indivíduos perturbados, que não têm o direito de interferir de uma forma tão atroz na vida de jovens indefesas.


Momento em que as personagens femininas se unem para ajudar Aimee e andam juntas de autocarro (Fonte: Netflix)

Estes são apenas alguns dos muitos casos que Sex Education representa, ao longo desta segunda temporada. A história, apesar de atrativa e divertida, acaba por cair para segundo plano, numa série que marca pela diferença e pela importância social que tem. Sex Education não se resume a uma série; o seu mediatismo não se prende com o enredo. Trata-se de uma produção cuja importância sai dos ecrãs e acaba por ter um papel de identificação ativo, nas nossas vidas. É muito difícil assistir à série sem encontrar um ponto comum com a nossa realidade, em algum momento, e, na vida de pessoas reservadas ou inseguras, Sex Education pode ser a chave de muitos tabus.

Nesta medida, é imperativo que a série continue e que surjam outras produções com a esta consciência social e com um intuito que fuja, igualmente, à procura trivial por audiências; que tenha um propósito significativo e que possa ser uma ajuda na vida das pessoas, que, muitas vezes, apenas procuram entretenimento nas séries, mas podem encontrar uma zona de conforto, onde vêem explorada a sua realidade.

Crítica: 4/5



Artigo revisto por Margarida Braga Costa

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