• Gonçalo Dias Martins

“Mina de Ouro” - Os bairros de Vialonga, onde o talento emerge (com entrevista a Zizzy Jr. dos WBG)



“Foi aqui que cresci. Foi aqui que conheci as pessoas com quem partilho a minha vida e com quem a estou a construir. Aquilo que fazemos é um reflexo de nós próprios, e nós somos quem somos porque somos daqui, de Vialonga. Para nós, a capital de Lisboa”

Pedro Osório vive em Vialonga, desde que nasceu. Os seus familiares, maternos e paternos, foram vítimas do processo de descolonização, após a revolução de 1974, e foram obrigados a abandonar África, sob o desígnio de “retornados”. À chegada, ambas as famílias foram alojadas num dos bairros de Vialonga, local onde os pais de Pedro acabaram por se conhecer.


Vialonga é uma freguesia situada na periferia do concelho de Vila Franca de Xira. Com pouco mais de 20 mil habitantes, é conhecida, tradicionalmente, pelos seus bairros, outrora notórios pelo crime e pela violência, que habitualmente paira sobre estes ambientes urbanos.



Contudo, Vialonga tem contrariado a imagem fragilizada que os bairros adquiriram e encontra-se, hoje em dia, nas bocas do mundo, pelo talento que tem emergido nas suas ruas. Uma geração que tem marcado a sociedade, essencialmente, nas artes e no desporto, e tem elevado o bom nome do local onde cresceram.

Pedro é um desses exemplos. O músico pertence a um dos grupos mais consagrados do panorama do HipHop em Portugal, os Wet Bed Gang, formado, na sua totalidade, por elementos provenientes de Vialonga.


O grupo nasceu nos estúdios artesanalmente montados no bairro. Após o infortúnio de perderem o seu líder e fundador, João Sousa, ou Rossi, como era chamado, vítima de afogamento, os seus elementos decidiram homenagear a sua pessoa, construindo um legado, e elevaram a sua música ao reconhecimento público. Em poucos anos, os Wet Bed Gang passaram de atuar para algumas dezenas de pessoas, para atuar perante plateias de vastos milhares de fãs, de Norte a Sul do país, marcando presença em grandes festivais nacionais, como o MEO Sudoeste e o Sumol Summer Fest, e até no estrangeiro, nas comunidades lusófonas. O grupo é aclamado por muitos como o melhor grupo português do seu género musical e esse estatuto corresponde ao sucesso que os seus projetos têm obtido, nas grandes plataformas.


Pedro junto dos fãs (Fonte: Instagram do artista)

Pedro, ou Zizzy Jr., como é conhecido no meio, juntamente com os seus colegas, Lizandro (Zara G), Gerson (Gson) e Tomás (Kroa), são, talvez, o caso mais conhecido de sucesso do seu bairro, mas não são os únicos. Phoenix RDC é um nome que marcou o panorama do HipHop nacional e foi padrinho de muitos jovens talentos do seu bairro. Psico é outro grande nome associado à música e à produção audiovisual e é também  proprietário do estúdio musical mais reconhecido de Vialonga, a “Caverna”. Pizzy é um rapper muito conceituado em Vialonga, não só pelo seu registo no rap, mas também por ser um dos fundadores dos Wet Bed Gang e por ter ajudado a lançar inúmeros jovens da zona. Giovanni, Dero Vibez, entre outros, colecionam milhões de visualizações nas grandes plataformas digitais e, mesmo muito jovens, movem muitos fãs para os seus concertos, em todo o país. O rap crioulo também tem uma forte representação, através de rappers como Tchoras MC e Magnatão. Todos eles cresceram no ambiente de bairro que Vialonga lhes proporcionou.



“É sempre diferente crescer num bairro. Para mim, tornou-se normal, porque é a minha realidade, mas tenho noção de que, para quem é de fora, não somos vistos como ‘normais’. Claro que existe muita coisa negativa associada aos bairros, e, quer queiramos, quer não, as oportunidades não são as mesmas, para quem vem de uma realidade assim”


É fácil associar esta reflexão como uma das principais causas da criminalidade inerente aos bairros. A marginalização cria a necessidade de sobreviver, sem poder medir as alternativas, e, muitas vezes, a ilegalidade é um caminho que quem vive nos bairros se vê quase obrigado a seguir e que pode desviar os jovens e colocá-los num caminho sem retorno.


“Num bairro social, é muito difícil seguir uma vida normal. Aqui, vivem pessoas sem documentos, adolescentes que não têm pais, são muitas as situações diferentes de precariedade e dificuldade. Quando a barriga ronca, as pessoas têm de a alimentar, de qualquer forma. Não condeno, mas também não sou a favor de que se siga esse caminho.”


Hoje, Pedro não passa tantas dificuldades, graças ao seu sucesso na música. Mas, como todos os outros que vivem nos bairros de Vialonga, nem sempre a sua vida foi estável e equilibrada, e, questionado se nunca se sentiu tentado a seguir um caminho mais negativo e a abandonar a sua vocação, confessa:


“Não vou mentir, porque não sou nenhum santo. De facto, fiz muitas coisas que não devia ter feito, mas nunca foi por vaidade, foi sempre por necessidade. Mas acho que a escolha está no ADN de cada um, e eu sempre soube que esse caminho não era a vida que queria para mim. Graças a Deus, encontrei algo muito positivo, algo que amo e em que coloco todo o meu empenho: a música, que me deu coisas que eu nunca pensei que iria ter”


Wet Bed Gang durante o concerto na Semana Académica de Lisboa (Fonte: Instagram da banda)

Esta mentalidade é algo que facilmente encontramos, nas pessoas de Vialonga. O ambiente que se vive no bairro não transpira a violência e o lado obscuro das comunidades habitualmente marginalizadas. Os valores de entreajuda e pertença são muito vigorantes e cada indivíduo é visto como um elemento de uma família muito numerosa.


“Aqui, as portas estão sempre abertas. Eu deixo o carro com as janelas abertas, a noite toda, e os únicos intrusos que apanho, por vezes, é um gato ou outro. As mães dos meus amigos são todas minhas tias, almoçamos na casa de um e jantamos na casa de outro. Não existem divergências, apenas união. É como se vivêssemos com a nossa família toda, no mesmo local, porque sais da porta de casa e não há ninguém que não conheças. E existe um enorme respeito dos mais novos para com os mais velhos.”

Este respeito entre gerações é uma caraterística forte da comunidade. É fácil tecer uma ligação entre esta partilha de conhecimento, que os mais novos interiorizam dos mais velhos, com a prosperidade do bairro. Existe uma aura protetora sobre os miúdos de Vialonga, estabelecida pelo saber e pela experiência dos veteranos. Não se trata apenas de um tradicional cuidar sobre as crianças, mas de um acompanhamento próximo do seu crescimento e de um suporte que os auxilia a tomar as decisões certas, num local onde as decisões erras estão, muitas vezes, acessíveis.


Este fenómeno manifesta-se de forma ainda mais visível no outro ramo onde Vialonga tem despertado a atenção: no futebol.

O desporto e, essencialmente, o futebol, estão muito presentes na vida de qualquer bairro. É nos ringues de rua e nos clubes humildes das proximidades que se formam grandes amizades e grandes ligações. Vialonga não é diferente. Porém, as pessoas do bairro são muito próximas das equipas que as representam, e os mais velhos tentam ajudar os mais novos a terem o foco e o empenho necessários, para poderem chegar longe, por via do desporto.


Esta realidade foi fulcral para o despertar de jovens estrelas que saíram de Vialonga.

Ivan Cavaleiro é o mais forte exemplo de perseverança que saiu dos campos d’Os Patuscos, um dos clubes mais conhecidos da freguesia. Ivan vivia no Parque Residencial de Vialonga, desde que nasceu. Era apaixonado por futebol e, segundo os seus familiares e amigos, desde muito cedo que se perspetivava que a sua vida passaria pelo desporto.


“Desde novo que Ivan se destacava. Andava sempre com uma bola e todos, no bairro, víamos que tinha uma qualidade acima da média”, afirmou Telmo Cavaleiro, irmão mais velho de Ivan, em entrevista ao jornal local “O Mirante”.


O atual jogador do Wolverhampton, da primeira divisão de futebol inglesa (atualmente emprestado ao Fulham), foi descoberto aos 11 anos, pelo Sport Lisboa e Benfica, clube onde não singrou, de imediato. Ivan passou, muito jovem, por cedências ao Real Massamá e, mais tarde, ao Belenenses, mas nunca desistiu de se tornar jogador de futebol. O jovem vivia sob as circunstâncias humildes da sua família e do seu bairro e, não tendo quem o transportasse para os treinos, com apenas 15 anos, Ivan ia, todos os dias, sozinho até Belém, de transportes públicos, e voltava.

Com o tempo, o jogador voltou ao Benfica, com êxito, foi transferido para o AS Mónaco, do campeonato francês, e tornou-se internacional, pela seleção principal de Portugal, com apenas 20 anos.


Yannick Djaló é outro jogador que também passou pelo clube d’Os Patuscos, em idade tenra. O atleta, contrariamente a Ivan Cavaleiro, acabou por rumar ao rival Sporting Clube de Portugal, numa idade mais avançada da sua formação, e seguiu também um percurso internacional, no futebol.


Rafael Silva, ou Rafa, como é conhecido nos relvados, é outro jogador de grande ascensão que tem ligações a Vialonga e aos seus ringues. Apesar de nunca ter vestido a camisola de um clube desta freguesia, morava na vizinha Forte da Casa e, após representar o União Atlético Povoense e o FC Alverca, clubes da mesma zona regional, rumou ao Feirense, Braga e acabou por ser uma das contratações mais sonantes do Benfica, no Verão de 2016, ano em que se tornou campeão europeu por Portugal, numa vitória inédita da seleção nacional, em provas internacionais.


É pouco usual despoletarem três jogadores, com ligações ao mesmo local, com um grau de sucesso tão acentuado. Tal como na música, o futebol é um parâmetro que eleva os bairros de Vialonga e os seus moradores. 

Mas será que este fenómeno é repetível, ou estamos apenas perante uma geração de ouro que, fortuitamente, nasceu e/ou cresceu no mesmo bairro? Terá Vialonga capacidade para continuar a fazer emergir novos talentos no futuro?


Pedro não tem dúvidas, quanto à resposta:


“De certeza absoluta que vão continuar a surgir novos talentos. Os miúdos daqui, hoje em dia, desenham os seus objetivos muito cedo. Para eles, ‘não é fixe’ ter problemas na escola. Para eles, ‘não é fixe’ ter problemas com a polícia. É esta a mentalidade que nós tentamos incutir. Tentamos dar as bases e o conhecimento necessários. Nós já alisámos o terreno, da mesma maneira que a geração anterior alisou para nós, e, por isso, espero que se torne um ciclo e que isso facilite a que mais miúdos cresçam sobre este foco e esta fé”

A verdade é que existe um laço, entre Vialonga e as suas pessoas, que não se desfaz. Apesar do sucesso, os filhos da terra não quebram a ligação ao seu berço e continuam preocupados com o seu bairro e a tentar melhorá-lo, seja económica ou socialmente. 


Ivan Cavaleiro, por via das circunstâncias da sua profissão, já não vive perto do bairro onde cresceu, mas é lá que mantém guardadas as suas medalhas e recordações dos seus êxitos, no seu antigo quarto. Mesmo longe, Ivan dá um suporte financeiro essencial ao bairro, nomeadamente, ao nível de patrocínios ao clube da freguesia, que fez parte da sua formação enquanto jogador.


Equipamentos d’Os Patuscos patrocinados por Ivan Cavaleiro (Fonte: Jornal O Mirante)

Todos os elementos dos Wet Bed Gang ainda vivem no mesmo bairro, em Vialonga, e, apesar de longas estadias fora do mesmo, devido a digressões e concertos, têm um papel muito ativo sobre o bairro: tentam apoiar jovens artistas que possam despoletar e não fogem às suas responsabilidades enquanto exemplos de sucesso.


O que prende, afinal, as pessoas a Vialonga?


“Eu sinto-me muito ‘bairrista’, no sentido em que este bairro faz parte da minha identidade. Aqui, sinto um conforto e uma paz que não consigo ter em mais nenhum lugar do mundo. Aqui, sou o Pedro, não sou o Zizzy. Aqui, conseguimos ser nós próprios. Acho que é isso que nos prende aqui. A nossa casa não é o sítio onde moramos. Estar em Vialonga é estar em casa. É aqui que pertencemos.”

A verdade é que Vialonga não é hoje vista como mais uma freguesia reconhecida pelos seus bairros. Não podemos esconder que existe sempre uma vertente negativa, que vive nas sombras das suas ruas, mas, hoje, a “V-Block”, como os seus moradores a intitulam e como é conhecida, é um local onde se emana positivismo, devido ao sucesso dos seus e à forma como o talento e o foco assentaram no quotidiano do bairro, acima do crime e da violência. Deste bairro, saem grandes personalidades, com uma frequência fora do comum. Não é apenas uma comunidade. É uma mina de ouro.



Artigo revisto por Margarida Braga Costa

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