• Gonçalo Dias Martins

"Locke & Key": uma porta forçada entre a banda desenhada e o pequeno ecrã


Fonte: Netflix

Nascida de mais uma adaptação da literatura, por parte da Netflix, "Locke & Key" aspirava a ser uma nova série de sucesso, destinada ao vasto público do género fantasia. A história segue a trama original dos livros de banda desenhada, escrita por Joe Hill, filho do famoso escritor norte-americano Stephen King.


A visão literária de Joe Hill é caraterizada por uma aproximação da fantasia ao horror e ao drama, um pouco à semelhança do seu pai, e "Locke & Key" é uma representação disso mesmo. A série tentou seguir esse fio condutor, mas pareceu, por vezes, perder-se nos saltos entre géneros.


O enredo desenvolve-se em torno da família Locke. Após o homicídio do professor Rendell Locke (Bill Heck), por parte de um aluno, a sua esposa, Nina, e os filhos, Tyler, Kinsey e Bode, mudam-se de Seattle para a terra natal do pai. Aí, instalam-se na mansão onde Locke vivera, a Keyhouse, localizada numa pequena cidade de Massachusetts.


A história ganha uma nova proporção, quando Bode (Jackson Robert Scott), o irmão mais novo, descobre que estão escondidas pela casa diversas chaves mágicas, cada uma com um poder distinto. Assim, tenta convencer os seus irmãos de que as devem procurar e mantê-las seguras de uma mulher demónio chamada Dodge (Laysla De Oliveira), que as quer a todo o custo.



Tyler (Connor Jessup) e Kinsey (Emilia Jones) acabam por relacionar as chaves com o passado do pai, e desconfiam que poderá ter sido essa a razão pela qual este abandonou a cidade onde cresceu. Já a mãe, Nina (Darby Stanchfield), que planeou a ida da família para a Keyhouse, pois acredita que pode encontrar respostas para o homicídio do marido, vê-se envolta em mistérios do mundo real, que parecem confirmar as suas suspeitas.


Não é a primeira vez que existe uma tentativa de adaptar a obra de Joe Hill ao pequeno ecrã. Em 2010, a Dreamworks e a Fox aliaram-se para produzir uma série. Apesar da boa receção na Comic-Con de San Diego, onde foi emitido o primeiro episódio, a Fox acabou por desistir de dar continuidade ao programa.


Em 2017, a Hulu encomenda um episódio piloto para uma nova adaptação, mas, novamente, cai por terra, e os direitos de produção cinematográfica de "Locke & Key" ficam, de novo, disponíveis.


A Netflix viu, então, uma oportunidade para pegar na série, e, em 2018, confirma-se o projeto, com a participação na produção do criador Joe Hill. A série desenvolve-se fiel à obra literária do escritor, apesar de existirem alguns ajustes na cronologia e na contextualização das personagens. A nível visual, foi reduzido o grau de violência e de sangue, característico da banda desenhada de "Locke & Key", mas, muitas vezes, vemos representações próximas das ilustrações originais de Gabriel Rodriguez.


"Locke & Key" acaba por atacar um nicho de mercado de um público habituado a grandes clássicos. Nota-se que a série não foge da influência de grandes obras do passado, adaptadas da literatura. Existem momentos em que sentimos a energia d' "As Crónicas de Narnia", nos quais Bode se assemelha a Lucy Pevensy. Ambos encontram uma dimensão mágica, paralela ao mundo real, e têm a dificuldade de convencer os irmãos mais velhos de que essa dimensão existe. A série não teme essas comparações e a influência de outras obras, tanto que faz referências explícitas a "Narnia" e a "Harry Potter", e ainda uma homenagem clara à obra de Tom Savini, uma figura da produção de cinema de terror, que inclusive faz uma aparição como ator num episódio da série.


Apesar de considerar a série divertida, e até coerente ao nível da adaptação, existem vários aspectos que a tornam vulnerável à crítica. A tentativa da Netflix de a tornar num programa mais familiar, e propício a um público de todas a idades, mantendo a origem de drama e horror de Joe Hill, acabou por ser um calcanhar de Aquiles no desenvolvimento da série. Se por vezes assistimos a momentos marcados pela infantilidade, caraterística comum do cinema para crianças, de seguida somos confrontados com momentos de tensão, não muito sugestivos aos mais novos. Deixa a ideia de que a tentativa de encaixar a série em várias faixas etárias a tornou pouco homogénea. De facto, muitas vezes, sentimos que o programa é adequado aos mais novos, mas sempre sujeitos a algum tipo de peripécia assustadora ou dramática, que poderia deixar desconfortável até um adulto.


Outro vértice em que a série perde a sua credibilidade é a forma abrupta como as personagens tomam conhecimento da magia, sem o mínimo de veracidade que se exige. Mesmo sendo uma série ficcional de fantasia, é necessário um cenário real em que as personagens confrontadas com magia deveriam reagir com espanto, choque e alvoroço. Em vez disso, a grande maioria das personagens, quando assiste pela primeira vez a algo mágico, reage com naturalidade e com uma serenidade completamente irreal. Como se não bastasse, à medida que a série se aproxima do fim da temporada, as personagens secundárias começam a ser trazidas para o enredo mágico de uma forma precipitada e com pouco sentido, como se o segredo da existência das chaves e da sua magia, que parecia imperial no início, se desvanecesse sem nenhuma razão aparente.


A própria história tem muitos contra-sensos que carecem de justificação. Por várias vezes, ficamos confusos com os acontecimentos, pois não existe qualquer explicação lógica para os mesmos, dada pela série, até ao momento. Muitas das dúvidas deixadas por esta temporada podem vir a ser respondidas na temporada vindoura, mas existem muitas outras questões que nunca terão uma contextualização ou um esclarecimento, e que causam constrangimento a quem a assiste.


Porém, o desenvolvimento das personagens é inteligente e muito interessante de acompanhar. Destaco o papel da mãe, Nina, que inicia a série com um fardo muito pesado. Três filhos, viúva, com um passado de alcoolemia e a quem muitas vezes é passado um atestado de incompetência enquanto mãe. Pouca capacidade intelectual, pouca racionalidade, obcecada com a morte do esposo e ferida pelo distanciamento dos filhos. A personagem escala de episódio para episódio. Nina mostra-se uma mulher corajosa e muito inteligente, perspicaz na sua demanda por respostas, e uma mãe cuidadosa, preocupada e muito entregue aos seus filhos. É revigorante ver o progresso de Nina, e a forma como a personagem se torna o elo de ligação entre a dimensão real e a dimensão mágica da história, o que lhe atribuí um papel preponderante ao longo da temporada.


Depois, temos Bode Locke, a alma da série. Bode não é apenas mais uma criança emancipada pela fantasia. A personagem é o próprio fio condutor da série. Demonstra ter uma consciência e uma clarividência muito acima da média, para a sua idade. Dada a importância e os comportamentos de Bode, esquecemo-nos, constantemente, de que se trata de um miúdo, numa cidade nova, sem amigos, que assistiu à perda do pai recentemente, e que, mesmo assim, consegue absorver tudo isso e transbordar uma energia contagiante para o público. Isto tudo devido à prestação incrível de Jackson Robert Scott, que, com apenas 11 anos, mostrou um nível muito elevado de representação, e presenteou a série com um papel divertido e fulcral para o seu sucesso.



A série é, visualmente, muito apelativa. É uma obra cinematográfica com muita cor, com jogos de luz muito interessantes, e os efeitos especiais, na sua maioria, são muito bons, a nível gráfico. Existem planos muito bem recortados, que ajudam à misticidade da série, e todo o conjunto de elementos que faz arregalar os olhos é, talvez, o ponto mais forte de toda a produção.



Apesar de todos defeitos apontados, "Locke & Key" revela-se uma série diferente, intrigante e aprazível. Pode não ter as componentes necessárias para se tornar um êxito incontestável, mas tem um forte potencial para evoluir e trazer novas temporadas entusiasmantes, que prendam o público ao ecrã. Para já, e para os mais ansiosos, resta ler a obra de Joe Hill, e deleitar-se com as ilustrações de Gabriel Rodriguez, enquanto a segunda temporada não chega à Netflix.


Crítica: 3.5/5


Artigo revisto por Mariana Plácido

111 visualizações

RECEBE AS NOVIDADES