• Gonçalo Dias Martins

Julian Weigl: o início de um novo paradigma no futebol português ou uma exceção à regra?


Ao longo da sua história, o futebol português foi muitas vezes brindado com jogadores internacionais de classe mundial, que, apenas com a sua presença, aumentaram o valor e visibilidade do nosso campeonato. Porém, estas figuras surgem tradicionalmente em duas situações distintas.



A primeira trata o paradigma da prospeção de carreira. É recorrente jogadores talentosos, sobretudo provenientes dos campeonatos sul-americanos, mas não só, utilizarem o campeonato português como uma escala para grandes voos. À cabeça, recordamos os casos de Di María (ex-Benfica) e de Radamel Falcao (ex-Porto), que tiveram caminhadas de sucesso no campeonato português, tanto a nível individual como coletivo, o que os catapultou para o topo do futebol mundial. Di María conseguiu chegar à equipa do Real Madrid, onde venceu uma Liga dos Campões e uma Liga Espanhola, e, atualmente, é uma das figuras responsáveis pela hegemonia absoluta do PSG, em França. Falcao rumou, também, para Espanha, mas para reforçar o rival da capital, Atlético de Madrid, onde venceu uma Liga Europa e uma Supertaça Europeia. Já no campeonato francês, foi o melhor marcador do Mónaco, o que auxiliou o clube a vencer um título que escapava há 17 anos.



No prisma oposto, existem os jogadores que optam pelo campeonato português, numa fase descendente da carreira. Jogadores com um currículo que fala por si, mas que, devido à idade ou a lesões, perdem o espaço nos colossos europeus e decidem rumar a Portugal. A posição onde estes sintomas são mais flagrantes é na posição de guarda-redes. Michel Preud’homme (ex-Benfica), Peter Schmeichel (ex-Sporting CP), Júlio César (ex-Benfica) e Iker Casillas (ex-Porto) são nomes de guarda-redes que conquistaram o mundo do futebol e escolheram as terras lusas como plataforma de aterragem. Aimar foi talvez o exemplo de maior talento travado por lesões, o que impediu o jogador de atingir patamares estratosféricos. Através de Rui Costa, o ex-médio acabou por chegar ao Benfica e ao futebol português.



A chegada de Julian Weigl abre um novo paradigma no futebol português. Falamos de um jogador com mais de mil minutos na Bundesliga, ao serviço de um grande do futebol europeu, como o Borussia Dortmund, e com presença assídua nas convocatórias da seleção alemã. Dir-me-ão que Julian Weigl chega ao Benfica resultado de um historial de lesões que o fizeram perder espaço no plantel do Borussia, e creio que é factual.

Mas falamos de um jogador com vinte e quatro anos, que, esta época, já realizou vinte jogos, e esteve presente em quatro dos seis jogos realizados pelo clube alemão na Liga dos Campeões. Não falamos de um jogador que estava, permitam-me a expressão popular, no “estaleiro”. Trata-se de um jogador jovem, atualmente em forma, que troca um dos maiores campeonatos do mundo pelo campeonato português.



Mas o que pode atrair mais jogadores como Weigl a fazer um percurso que, para a maioria, provavelmente seria o contrário ao ideal? Será Weigl um indício de que o futebol português poderá vir a receber mais jogadores de níveis superiores ou apenas uma exceção à regra, que ofusca o restante comportamento no mercado das equipas portuguesas?


A meu ver, os dois cenários são possíveis. Porém, a subjetividade prende-se com diversos fatores, cuja responsabilidade passa não só pelos clubes, mas também pela liga.

Começando pelos clubes, existem duas vertentes que os jogadores colocam na balança, quando pretendem transferir-se: a financeira e a desportiva. Assistimos, no mercado atual, a um domínio irreversível a curto prazo por parte dos grandes “tubarões” europeus, o que, claro, desconstrói a capacidade das equipas portuguesas de negociar com os jogadores com valores chamativos. Para os grandes clubes da Europa é uma prática comum premiar os jogadores com salários muito elevados, para os clubes portugueses é um sacrifício financeiro. Para tentar competir com esta prática, é necessário que os clubes portugueses se reconstruam financeiramente e que, estrategicamente, afinem as miras para jogadores que sabem que, cirurgicamente, vão fazer a diferença nos seus plantéis. Weigl foi uma oportunidade de mercado, mas muitas vezes vemos os clubes portugueses a ser ludibriados com “oportunidades de mercado”, tanto por parte de clubes com dimensão superior como por empresários. Nesse sentido, é necessário um scouting assertivo que apenas selecione jogadores que dão garantias, para que o investimento tenha retorno desportivo. Não significa que estas melhorias sejam sinónimo de uma eficácia absoluta, mas certamente os clubes errariam menos vezes. Depois, para que este distanciamento financeiro se reduza, é necessário que os clubes portugueses tenham a paciência de se sujeitar ao mercado atual, enquanto não conseguirem o equilíbrio económico. Muito custa aos clubes portugueses, e, essencialmente, aos seus adeptos, verem os seus maiores valores serem transferidos para outros clubes, sobretudo quando são atletas formados nas suas escolas e que fizeram todo um processo de crescimento com as suas cores. Mas a verdade é que, no panorama atual, prender esses jogadores no campeonato português, desvalorizando os seus ativos, muitas vezes mantendo-os reféns dos seus contratos, o que culmina em saídas a custo zero, só aumentará o fosso que separa o futebol português das grandes ligas europeias, em termos financeiros. Além disso, alimentará um cenário de subjugação dos clubes portugueses na Europa por largos anos, se a situação não começar a ser revertida no imediato. A realização de grandes transferências no presente pode anular a necessidade de as fazer no futuro. A saúde financeira tem ligação direta com o sucesso desportivo, sobretudo no futebol atual, cujo negócio é um dos fatores mais influentes nas equipas.


A nível desportivo, é essencial que os clubes portugueses apresentem projetos ambiciosos. Partindo do princípio de que jogadores como Weigl chegarão de campeonatos muito mais competitivos e com muito maior visibilidade, os objetivos do clube não podem ser limitados a nível interno. Apesar da importância extrema para os clubes de se sagrarem campeões nacionais, nenhum jogador de classe mundial sentir-se-á seduzido por tão baixa ambição e tão baixo grau de exigência. Os clubes têm de colocar a Europa nos seus horizontes. Com a consciência de que não é fácil competir com as melhores equipas do mundo que possuem meios para construir plantéis muito mais valiosos, é imperial que exista um trabalho técnico e estrutural que tenha como objetivo eliminar essa desvantagem. Esta visão não só agrada aos jogadores, como agrada muito aos adeptos que exigem o rigor a que a história dos clubes obriga. É inerente a dificuldade dos clubes portugueses de prosperar em desafios internacionais em que os seus recursos são inferiores, mas tivemos, num passado recente, vários exemplos de sucesso de equipas que chegaram longe com as mesmas desvantagens, como é o caso do Ajax, que, na época transata, chegou às meias-finais da Liga dos Campeões, ultrapassando Juventus e Real Madrid.


Relativamente à liga, é importante perceber o porquê de o campeonato português ser tão frágil, tanto a nível desportivo como a nível mediático. Não é normal um país que exporta tantos jogadores e treinadores de qualidade, que tem clubes históricos que marcaram a cronologia do futebol mundial em eras distintas e que, muitas vezes, consegue projetar modelos estruturais a todos os níveis desde as instalações, ao treino, ao scouting e aos empresários, tenha uma liga tão pouco competitiva e apelativa. Porque é que a Premier League é considerada por muitos como a melhor liga europeia? Para começar, tem sempre cinco ou seis equipas que apontam ao título em termos de objetivo, e muitas das vezes grande parte dessas equipas luta inerentemente pelo título. Depois, praticamente todas as equipas são competitivas. Têm plantéis com valor, capazes de causar dificuldades a qualquer equipa, desde o primeiro ao último lugar, o que torna a liga imprevisível todas as jornadas e interessante ao espectador. Em comparação com a liga portuguesa, cuja luta pelo título se cinge a grande maioria das vezes a dois clubes, existindo um fosso muito cimentado entre os clubes grandes e os restantes, é lógico que o grau de imprevisibilidade reduz, e, consequentemente, o campeonato perde entusiasmo. Avaliando o percurso recente de Benfica e Porto, verificamos que, a grande maioria das vezes, estas duas equipas passam os desafios com as restantes equipas sem dificuldade. Salvas raras exceções, as equipas praticam um futebol pouco atrativo, por falta de recursos ou por ideologia, e preferem adotar comportamentos essencialmente defensivos, com pouco critério de construção e grau técnico pouco evoluído. Era importante que a liga tentasse atenuar o desequilíbrio que existe, mesmo que isso não vá ao encontro dos interesses dos clubes grandes. A centralização dos direitos televisivos seria um grande passo nesse sentido, que, pelo menos, tornaria possível rentabilizar o produto que é a liga e beneficiava financeiramente as equipas, fornecendo recursos para que aumentassem o valor competitivos dos seus plantéis. Por toda a Europa, assistimos a esse processo. No entanto, Portugal continua com a sua tradicional “teimosia”. Com uma liga mais competitiva, com grau de surpresa elevado e com um futebol bem praticado pela maioria das equipas, assistiríamos a um crescente mediático que atrairia espectadores, investidores e jogadores a quererem pertencer a essa realidade.


Neste sentido, está nas mãos dos dirigentes a chegada de novos jogadores como Weigl. Jogadores capazes de aumentar o nível das equipas e do campeonato português. É uma realidade que está ao alcance do futebol português, e os sinais de que é possível cativar jogadores de classe mundial a vestirem as camisolas dos nossos clubes são claros. Os adeptos agradecem.



Artigo revisto por Mariana Plácido

57 visualizações

RECEBE AS NOVIDADES